Entre os tratamentos mais modernos para a insuficiência mitral, temos a plastia mitral, a troca valvar por prótese (mecânica ou biológica) e a terapia transcatéter. Tanto a plastia quanto as próteses são realizadas por cirurgia minimamente invasiva, ou seja, através de incisões de cerca de 4cm a 5cm e, até mesmo, por cirurgia robótica.
Esse avanço da Medicina desmistifica bastante a cirurgia cardiovascular, uma vez que “abrir o peito” não é mais uma regra.
Neste texto, você vai saber os prós, contras e os critérios que devem ser considerados ao escolher o melhor tratamento para a insuficiência mitral.
Plastia Mitral: o padrão-ouro de tratamento
A insuficiência mitral degenerativa resulta de alterações na anatomia valvar, como ruptura ou alongamento das cordas, dilatação do anel e degeneração dos folhetos. Nesses casos, a plastia mitral é considerada o tratamento de primeira escolha, uma vez que preserva a válvula do próprio paciente.
A plastia é como uma plástica que corrige os problemas que estão causando a insuficiência mitral, sem precisar implantar uma prótese. Assim, ela resolve causas específicas, tais como:
- Cordas novas quando há ruptura/alongamento;
- Ressecção de segmentos do folheto doente;
- Anuloplastia para restaurar o diâmetro do anel.
Ao contrário do que muitos pensam, a cirurgia de plastia valvar mitral é realizada com técnicas minimamente invasivas, ou seja, sem “abrir o peito”. Atualmente, as duas principais abordagens são:
- Cirurgia minimamente invasiva: incisão de cerca de 4cm/5cm, sem corte do esterno (osso no meio do peito). Em mulheres, a incisão costuma ser feita abaixo do seio, escondendo completamente a cicatriz.
- Cirurgia robótica: pequenas incisões de cerca de 3cm/4cm, também sem corte do esterno. A grande vantagem dessa abordagem é que ela aumenta as chances de plastia, pois permite melhor visualização ao cirurgião e alta precisão dos movimentos.
Ambas as técnicas oferecem menos dor no pós-operatório, menor risco de complicações e recuperação mais rápida, e são realizadas rotineiramente em nosso serviço, no Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis/SC.
Por que a plastia é o padrão ouro?
Quando possível, a primeira escolha do cirurgião é realizar uma plastia. Essa técnica corrige o problema valvar sem necessitar de uma prótese, o que é excelente para o paciente:
- A plastia combina técnicas complementares (novas cordas, ressecção de folheto doente, anel para reduzir dilatação), ajustadas ao mecanismo da insuficiência;
- Evita anticoagulação crônica, ou seja, o paciente não precisa tomar anticoagulantes nem realizar exames periódicos de controle de TAP, como no caso das próteses mecânicas;
- Oferece excelente durabilidade, frequentemente evitando reoperações futuras, como nas próteses biológicas.
No entanto, vale salientar que, nem sempre, a plastia valvar pode ser indicada. Essa análise depende do problema valvar, da anatomia e da condição de saúde de cada paciente.
Troca Valvar Mitral: prótese biológica x mecânica
Quando a plastia mitral não é viável, entra em cena a substituição da válvula doente por uma prótese. Nesse caso, a questão principal é escolher entre prótese biológica e prótese mecânica.
Essa decisão varia caso a caso e a participação do paciente é fundamental. Para que seja bem feita, é necessário conhecer prós e contras de cada tipo de prótese e considerar características muito pessoais, como disciplina, tipo de profissão, idade, entre outras.
Prótese Valvar Biológica
- Degenera ao longo do tempo. Assim, especialmente em pacientes mais jovens, a reoperação futura será necessária.
- Não precisa de anticoagulação contínua. Geralmente, é necessária apenas nos primeiros três meses, depois costuma ser dispensável.
Prótese Valvar Mecânica
- Não sofre degeneração, podendo durar a vida inteira.
- Requer o uso contínuo de anticoagulantes para evitar coágulos na prótese, assim como exames de sangue para controle a cada 40–60 dias.
Portanto, a escolha é bastante individualizada. O cirurgião cardiovascular deve lhe explicar de forma clara as vantagens e desvantagens de cada prótese e lhe auxiliar no processo de decisão.
Terapia Transcatéter (Clip Mitral)
Além da cirurgia minimamente invasiva e da cirurgia robótica para plastia ou substituição valvar, a terapia transcatéter é mais uma opção entre os tratamentos mais modernos para a insuficiência mitral.
Nessa abordagem, é utilizado um catéter para inserir um clip na válvula mitral. Esse clip aproxima os folhetos valvares e reduz a insuficiência mitral. No entanto, é importante saber que essa técnica tem algumas limitações:
- Depende da anatomia da válvula mitral do paciente;
- Tem menor durabilidade;
- É como um reparo limitado à anatomia adequada para o clip.
O clip resolve o espaço entre os folhetos, sem corrigir todos os mecanismos subjacentes. Por isso, sua durabilidade é menor em perfis que se beneficiariam de um reparo anatômico completo.
Além disso, assim como nas demais opções de tratamento, sua indicação depende de alguns fatores, ou seja, nem todos os pacientes se beneficiam dessa terapia. Normalmente, ela é indicada para:
- Pacientes com insuficiência mitral grave e alto risco cirúrgico (fragilidade, idade muito avançada, comorbidades significativas);
- Pode ser “ponte” para estabilizar o quadro, permitindo cirurgia definitiva depois;
- Em alguns casos, funciona como solução paliativa eficaz, alinhada à expectativa de vida e aos objetivos do paciente.
Qual opção de tratamento escolher?
A decisão ideal sobre qual procedimento realizar para o tratamento da insuficiência mitral é conjunta. Cabe ao cirurgião apresentar ao paciente todas as opções, seus riscos e benefícios, alinhando a técnica à vida real, e ao paciente analisar os impactos no seu dia a dia e no seu futuro.
Em linhas gerais, a escolha depende de fatores como:
- Idade e expectativa de vida;
- Fragilidade e comorbidades;
- Ritmo cardíaco e necessidade/viabilidade de anticoagulação;
- Anatomia da válvula (se é reparável com plastia);
- Adesão possível a exames e medicamentos;
- Preferências do paciente, depois de informado.
Como vimos, a cirurgia cardiovascular evoluiu para incisões pequenas e visualização robótica, enquanto o transcatéter expandiu o acesso a quem não pode operar. A grande questão é qual técnica oferece, para você, o equilíbrio certo entre segurança agora e qualidade a longo prazo?
Decisão boa é aquela que cabe no seu corpo e na sua vida. Para tomar sua decisão sobre qual caminho seguir entre as opções mais modernas de tratamento da insuficiência mitral, converse com o seu cirurgião cardiovascular sobre o seu caso. Tenha em mente que a qualidade do resultado não depende do tamanho da incisão, mas da técnica e da experiência da equipe cirúrgica.
