por Equipe Seu Cardio | Cirurgia Cardíaca, Válvulas
A plastia da válvula mitral (ou reparo valvar) é considerada o tratamento padrão-ouro para a insuficiência mitral severa. Diferente da troca valvar, que substitui a válvula por uma prótese, a plastia preserva a válvula natural do paciente. Essa abordagem oferece resultados superiores a longo prazo. Estudos mostram taxas de sucesso de até 90% após 25 anos. No entanto, a indicação cirúrgica precoce, mesmo em pacientes assintomáticos, é determinante para o sucesso do procedimento.
Ao falarmos sobre insuficiência mitral severa degenerativa, é necessário entender as opções de tratamento da válvula mitral. Atualmente, a cirurgia cardiovascular estabelece a plastia da válvula mitral como o caminho preferencial para a recuperação plena da função cardíaca.
Neste conteúdo, estruturamos os principais benefícios do reparo valvar e a importância do diagnóstico na cardiologia clínica, baseando-se em evidências científicas de longo prazo e na experiência do cirurgião cardiovascular Dr. Sérgio Lima de Almeida (CRM/SC 4370 RQE 5893), chefe da Equipe Seu Cardio e do Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis/SC.
Entendendo a Insuficiência Mitral Severa
A válvula mitral controla o fluxo sanguíneo entre as câmaras do coração. Na insuficiência mitral degenerativa, a falha no fechamento da válvula gera um refluxo sanguíneo. Assim, quando o quadro evolui para uma insuficiência mitral severa, o coração sofre uma sobrecarga volumétrica contínua.
Como resultado, com o tempo, esse “vazamento” pode sobrecarregar o coração. Consequentemente, causa sintomas e, em casos mais avançados, alterações na estrutura do músculo cardíaco.
Por que o reparo valvar é o padrão-ouro?
Atualmente, as diretrizes internacionais de cirurgia cardiovascular recomendam a plastia da valva mitral precocemente. Em linhas gerais, os principais fatores que fundamentam essa orientação são:
Durabilidade Superior:
A plastia valvar mitral é considerada o tratamento “padrão-ouro” por um motivo muito forte: resultados comprovados a longo prazo. Estudos científicos robustos, com acompanhamento de pacientes por mais de 20 anos, demonstram o sucesso e o benefício incomparável dessa técnica: ausência de insuficiência mitral significativa em 90% dos casos. Sem dúvida, esse resultado é muito superior a qualquer prótese.
Preservação da Estrutura Cardíaca:
Em linhas gerais, o reparo valvar (ou plastia) é superior à troca por próteses porque mantém a válvula original do paciente, preservando a anatomia e a função natural do coração.
Evita problemas decorrentes das próteses:
Inegavelmente, as próteses biológicas se desgastam com o tempo e podem precisar de uma nova cirurgia para a troca. Por outro lado, as próteses mecânicas, embora duradouras, exigem o uso contínuo de medicamentos anticoagulantes. Dessa forma, ambas apresentam alguma desvantagem aos pacientes. Já a plastia da sua própria válvula evita esses dois cenários.
Técnicas Modernas de Tratamento de Válvula Cardíaca
Atualmente, existem duas técnicas de reparo valvar, que podem ser realizadas de forma isolada ou combinada:
Técnica de “Ressecar”:
Consiste em remover uma pequena parte do tecido doente da válvula e reconstruí-la, de forma que volte a funcionar corretamente.
Técnica de “Preservar”:
Nesta abordagem, o cirurgião não retira tecido. Em vez disso, ele implanta novas “cordas” (chamadas cordoalhas) para dar o suporte necessário à válvula e restaurar sua capacidade de fechar completamente.
A possibilidade de combinar essas técnicas permite que os cirurgiões experientes consigam reparar diferentes tipos e graus da doença, corrigindo o problema valvar de forma personalizada para cada paciente.
Cirurgia Minimamente Invasiva
A cirurgia cardíaca evoluiu muito nos últimos anos e, hoje em dia, operar o coração não significa ter que “abrir o peito”. Antigamente, era necessária uma grande incisão central no tórax, prática que, atualmente, é destinada apenas a casos específicos.
A cirurgia para a plastia valvar mitral pode ser realizada por abordagem minimamente invasiva, ou seja, através de uma pequena incisão de cerca de cinco centímetros, ou por cirurgia robótica, na qual o cirurgião manuseia pinças cirúrgicas, com incisões ainda menores.
Para os pacientes, ambas as abordagens (minimamente invasiva e robótica) proporcionam menos dor no pós-operatório, menor índice de transfusão e recuperação mais rápida para retorno às atividades rotineiras.
Importância da Intervenção Precoce
O momento da indicação cirúrgica é vital para o paciente. O cirurgião cardiovascular Dr. Sérgio Lima de Almeida enfatiza que operar assim que a insuficiência mitral severa se apresenta, mesmo sem sintomas, proporciona melhores resultados e maior durabilidade. Nesses casos, é fundamental que o cardiologista clínico encaminhe o paciente para uma avaliação cirúrgica, o mais precocemente possível.
Muitas pessoas pensam que devem esperar o aparecimento de sintomas (como falta de ar ou cansaço) ou alterações no coração para considerar a cirurgia. No entanto, a literatura médica é clara: quanto mais precoce for a cirurgia em um paciente com insuficiência mitral severa, melhor e mais duradouro será o resultado da plastia.
Isso significa que os pacientes que obtêm os maiores benefícios são, muitas vezes, aqueles que são operados em uma fase ainda assintomática, ou seja, antes de sentirem qualquer sintoma. Esperar pode comprometer os resultados a longo prazo.
O que fazer para tratar a insuficiência mitral severa
Se você foi diagnosticado com insuficiência mitral severa, converse com seu cardiologista sobre a possibilidade de uma avaliação cirúrgica precoce. O ideal é procurar um serviço de cirurgia cardiovascular experiente em plastia da válvula mitral.
Um bom especialista poderá avaliar seu caso individualmente e, se a cirurgia for indicada, oferecer o que é considerado o padrão ouro no tratamento da válvula mitral com insuficiência severa: a chance de reparar sua própria válvula, sem necessidade de qualquer prótese, e garantir mais qualidade de vida por muitos e muitos anos.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual a diferença entre plastia e troca de válvula mitral? A plastia repara a válvula original do paciente, enquanto a troca substitui a válvula por uma prótese (biológica ou mecânica), que pode exigir anticoagulação ou novas cirurgias futuras.
Qual a vantagem da plastia mitral sobre a troca valvar? A plastia oferece maior durabilidade (90% de sucesso em 25 anos), preserva a anatomia natural do coração e evita o uso obrigatório de anticoagulantes (no caso de próteses valvares mecânicas) ou a realização de novas cirurgias com o passar dos anos (decorrentes do desgaste das próteses biológicas).
Quando procurar um cirurgião para tratar a insuficiência mitral severa? O ideal é procurar um serviço especializado em cirurgia cardiovascular assim que diagnosticada a insuficiência mitral severa. Operar antes dos sintomas previne danos irreversíveis ao músculo cardíaco (remodelamento) e assegura que a arquitetura da válvula ainda seja favorável para um reparo perfeito e duradouro. Na impossibilidade de realizar uma plastia, a opção passa a ser a substituição da válvula mitral doente por uma prótese, mecânica ou biológica.
Precisa abrir o peito para fazer a plastia da válvula mitral? Não, a plastia da válvula mitral pode ser realizada por abordagem minimamente invasiva, na qual o cirurgião faz uma incisão de cerca de 5 centímetros, ou por cirurgia robótica, com incisões ainda menores. Ambas proporcionam menos dor no pós-operatório, recuperação mais rápida e menor índice de transfusão sanguínea.
A plastia da válvula mitral é um procedimento comum? Alguns serviços já fazem a plastia valvar mitral como rotina, mas a técnica ainda não está disponível em todos os centros. No entanto, sua aplicação no tratamento da insuficiência mitral severa vem se difundindo rapidamente no Brasil e no mundo, baseada em evidências científicas sólidas de sucesso a longo prazo, e tende a ser amplamente adotada.
Sobre o autor:
Dr. Sergio Lima de Almeida (CRM 4370 / RQE 5893) é cirurgião cardiovascular em Florianópolis/SC, chefe da Equipe de Cirurgia Cardiovascular Seu Cardio e do Serviço de Cirurgia Cardíaca do Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis/SC e responsável pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do mesmo hospital. É também professor do curso de Medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul.
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Estado de Santa Catarina – UFSC e com residência na Beneficência Portuguesa, na equipe do Dr. Sergio Oliveira, aperfeiçoou-se em plastia de válvulas na Cleveland Clinic, acompanhando o Dr. Delos Cosgrove, e em cirurgia de cardiopatia congênita complexa, no Children ‘s Hospital – Harvard Medical School, acompanhando Dr. Aldo Castañeda. Recentemente, concluiu o curso de Cirurgia Cardiovascular Robótica, conduzido pelo Dr. Paulo Cesar Santos, expoente no Brasil.
Em sua rotina, adota a abordagem minimamente invasiva nos procedimentos cirúrgicos e, mais recentemente vem incorporando as cirurgias robóticas em revascularização do miocárdio, plastias e trocas valvares (mitral e aórtica). Dr. Sergio também realiza cirurgias de dissecção e aneurisma da aorta, além de implantes de marcapassos cardíacos e TAVI.
por Equipe Seu Cardio | Cirurgia Cardíaca, Válvulas
Quando a válvula aórtica enrijece, a vida desacelera. Falta de ar, tontura, cansaço, risco de morte súbita. A pergunta que chega ao consultório é direta: “Qual tratamento é melhor para mim?” Entre cirurgias minimamente invasivas, próteses mecânicas e biológicas e a TAVI (válvula transcateter), as escolhas para a troca de válvula aórtica parecem muitas, mas o que determina um bom desfecho ainda é simples: idade, risco cirúrgico, expectativa de vida e planejamento de reintervenções.
O que está acontecendo com a válvula aórtica
A estenose aórtica (estreitamento da válvula geralmente por calcificação) tornou-se mais comum conforme a população envelhece. Quando a válvula calcifica, ela não se repara: perde mobilidade, degenera e obstrui o fluxo sanguíneo. Nesses casos, o tratamento efetivo é a troca valvar.
Por que isso importa:
- É uma condição progressiva que reduz qualidade e expectativa de vida.
- A escolha da prótese impacta décadas de saúde: durabilidade, necessidade de anticoagulação, possibilidade e risco de futuras reoperações.
- As tecnologias evoluíram, mas a indicação correta ainda é o fator decisivo.
Troca de Válvula Aórtica: próteses mecânicas e biológicas
Próteses biológicas
- Feitas de tecido, têm durabilidade que varia com a idade do paciente.
- Em pessoas acima de 65–70 anos, costumam durar o restante da vida, com boa qualidade.
- Em pacientes mais jovens, tendem a degenerar mais rápido e frequentemente exigem reintervenção no futuro.
Próteses mecânicas
- Alta durabilidade: não sofrem degeneração estrutural como as biológicas.
- Exigem anticoagulação contínua por toda a vida. Na prática:
- Medicação oral diária, de baixo custo.
- Controle laboratorial do nível de anticoagulação a cada 40–60 dias.
- Geralmente não requer consulta médica a cada exame, desde que o controle esteja estável.
- Impacto cotidiano: responsabilidade do paciente com exames regulares e ajustes de dose.
Insight-chave: não existe “melhor” prótese em termos absolutos; existe a “mais adequada para sua idade, estilo de vida e horizonte de reintervenções”.
Troca de Válvula Aórtica: TAVI
A TAVI (válvula aórtica transcateter) surgiu para pacientes de alto risco cirúrgico e frágeis, oferecendo tratamento sem abertura do tórax. Com o tempo, estudos mostraram bons resultados também em risco intermediário e até baixo. Mas há nuances importantes.
O que sabemos hoje:
- A TAVI utiliza sempre prótese biológica; não há versão mecânica transcateter.
- Em pacientes muito idosos e com expectativa de vida mais curta, pode ser a melhor opção.
- Para pacientes abaixo de 70 anos, faltam estudos robustos confirmando durabilidade de longo prazo.
- Reoperações após TAVI são mais complexas:
- A válvula transcateter se fixa no cálcio da válvula nativa; removê-la aumenta o risco cirúrgico.
- A mortalidade de reoperação após TAVI pode ser 12–15 vezes maior do que a troca de uma válvula cirúrgica previamente implantada.
Frase para guardar: escolher TAVI em pacientes mais jovens pode significar uma cirurgia muito mais arriscada no futuro, justamente quando estiverem mais velhos.
Quando dá para colocar uma válvula dentro da outra (valve-in-valve)?
- Em alguns casos, uma TAVI pode ser feita dentro da primeira prótese cirúrgica , evitando-se assim uma reoperação .
- Isso depende do tamanho da válvula inicial:
- Válvulas pequenas dificultam a segunda implantação segura.
- Válvulas maiores podem permitir “valve-in-valve” com melhores resultados.
Cirurgia Cardíaca Minimamente Invasiva
A imagem clássica de esterno serrado está desatualizada para a troca isolada da válvula aórtica. Hoje:
- Incisões de 4–5 cm permitem acesso seguro.
- Menor agressão, dor e tempo de hospitalização.
- Recuperação mais rápida.
- Mortalidade e segurança comparáveis ou melhores em indicações apropriadas.
Isso desmonta a crença de que TAVI é sempre “igual ou melhor” apenas porque evita abrir o tórax. Em muitas faixas etárias e perfis de risco, a cirurgia minimamente invasiva oferece excelente prognóstico com baixo risco.
Na literatura médica, meta-análises recentes vêm mostrando que, em populações de baixo e intermediário risco, a cirurgia com prótese (seja por técnica minimamente invasiva ou aberta) apresenta maior sobrevida em cinco anos do que TAVI. É um ponto central na conversa com o médico: pensar não apenas no procedimento, mas no horizonte de cinco a dez anos.
Troca de Válvula Aórtica: qual prótese escolher?
Em linhas gerais, ou seja, sem considerar as especificidades de cada paciente, os seguintes critérios precisam ser avaliados na troca de válvula aórtica:
1) Idade e expectativa de vida
- 70+ anos: prótese biológica cirúrgica ou TAVI, conforme risco e comorbidades, tendem a cobrir a expectativa de vida.
- <70 anos: avaliar durabilidade e estratégia de reintervenção. Tendência a considerar prótese mecânica (se anticoagulação for aceitável) ou biológica com plano realista de futuras trocas.
2) Risco cirúrgico e fragilidade
- Alto risco/fragilidade: TAVI frequentemente preferível.
- Risco baixo/intermediário: cirurgia minimamente invasiva costuma oferecer melhor sobrevida em médio prazo.
3) Anticoagulação: consigo manter?
- Se sim, prótese mecânica elimina preocupação com degeneração estrutural.
- Se não, prótese biológica é alternativa — com consciência de possível reintervenção.
4) Planejamento de reintervenções
- TAVI precoce em pacientes jovens pode resultar em cirurgia complexa e de maior risco no futuro.
- Cirurgia com prótese biológica permite, em muitos casos, reoperações com risco mais baixo.
- “Valve-in-valve” é opção, mas depende do tamanho da válvula original.
5) Conversa em equipe
- Decisão ideal é compartilhada entre cirurgião, cardiologista e paciente, alinhando dados, preferências e estilo de vida.
Por que reoperar TAVI é mais arriscado?
A válvula transcateter se expande e se ancora no cálcio da válvula nativa, sem pontos. Essa “incrustação” dificulta a remoção segura depois que a prótese biológica degenera. Na reoperação, há maior risco de lesões nas estruturas cardíacas e maior tempo de cirurgia, o que explica a mortalidade significativamente superior comparada às reoperações de válvulas cirúrgicas tradicionais.
Consulta com o cirurgião cardiovascular
Abaixo, apresentamos alguns pontos para conversar com o seu cirurgião cardiovascular e que irão lhe auxiliar a escolher o melhor tratamento para a troca de válvula aórtica para o seu caso:
- Traga sua meta pessoal de tratamento: longevidade máxima, menor manutenção, evitar anticoagulação?
- Peça ao médico uma estimativa de durabilidade da prótese para sua idade.
- Confirme se há plano B para reintervenção futura (cirurgia, TAVI, valve-in-valve).
- Discuta explicitamente o risco de reoperação no cenário escolhido.
- Pergunte sobre a possibilidade de cirurgia minimamente invasiva e tempo típico de recuperação.
O avanço tecnológico ampliou escolhas, mas não substituiu a boa indicação. Na estenose aórtica, a melhor decisão é aquela que considera quem você é hoje e quem pretende ser daqui a cinco, dez anos. Trocar a válvula aórtica é parte do caminho; planejar o futuro da sua válvula é o que muda o desfecho. A tecnologia abre portas, a indicação correta decide por qual delas você deve passar.
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Atualmente, há diferentes opções de tratamento para estenose aórtica, condição cada vez mais frequente em idosos devido à calcificação e degeneração da válvula.
Com o constante avanço tecnológico da Medicina, é fundamental que a indicação seja realizada de forma consciente e com um único objetivo: proporcionar o melhor para cada paciente. Isso significa avaliar, de forma associada, a melhor estratégia hoje com o melhor prognóstico de longo prazo, de acordo com o perfil individual de cada um.
Entre conveniência imediata e durabilidade futura, a reflexão é essencial. E o melhor resultado nasce do diálogo informado entre paciente, cardiologista e cirurgião.
Publiquei um artigo sobre o tema. Acesse aqui:
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Quando trocar a válvula aórtica: escolhas, cenários e o que realmente importa
Há temas que exigem conversa franca, sem atalhos: a estenose da válvula aórtica é um deles. A população vive mais, a válvula envelhece, calcifica, perde mobilidade e, de repente o coração passa a bombear contra uma porta que não abre. O que fazer? Trocar a válvula. Mas qual válvula? Por onde? Com qual impacto hoje e amanhã?
Minha intenção aqui é orientar sem transformar tudo num discurso técnico distante. É a vida do seu paciente, que tem seu próprio ritmo e expectativa de futuro. E a medicina existe para servir a esse propósito.
O ponto de partida: por que não dá para “consertar” a válvula estenótica
Quando a válvula aórtica calcifica e degenera, o mecanismo está comprometido de forma irreversível. Diferente de outras valvopatias nas quais um reparo ainda é considerado, na estenose senil a alternativa real é a substituição. É como uma dobradiça tomada por ferrugem: lixar a superfície não resolve; a peça perdeu função.
Essa substituição pode ser feita com uma prótese mecânica ou biológica. Aqui, a conversa não é sobre “melhor” em termos absolutos, mas sobre adequação ao contexto de cada paciente: idade, estilo de vida, tolerâncias e prioridades.
Próteses mecânicas x biológicas
- Próteses biológicas:
- Vêm de tecido animal e se comportam como uma válvula orgânica. Por isso, sofrem degeneração ao longo do tempo dentro.
- Quanto mais jovem o paciente, mais rápido esse desgaste ocorre. Em pessoas acima de 65–70 anos, a durabilidade costuma ser suficiente para o restante da vida.
- Em pacientes mais jovens, escolher a biológica significa aceitar, no horizonte, uma reintervenção futura. É um pacto com o conforto do agora, sabendo que haverá nova etapa adiante.
- Próteses mecânicas:
- Não degeneram como tecido; por isso, têm durabilidade muito longa.
- A contrapartida é a anticoagulação contínua. O remédio é simples, dose única diária, custo baixo, mas há o compromisso do controle periódico por exame de sangue (em geral a cada 40–60 dias) para o resto da vida.
- Esse controle pode ser feito em laboratório, sem necessidade de consulta médica a cada ciclo. Ainda assim, é um estilo de vida com agenda e disciplina.
No fundo, a escolha é do paciente, após entender os prós e contras de cada opção. A questão central é qual compromisso ele quer assumir com o seu futuro. A biológica pede previsibilidade de reintervenção; a mecânica exige convivência com anticoagulação. Não há resposta universal: há uma escolha consciente.
A válvula transcatéter (TAVI): sem abrir o peito, mas com nuances
A terapia transcatéter surgiu como resposta a um grupo muito específico: pacientes frágeis, com alto risco cirúrgico, para quem a cirurgia tradicional poderia representar um perigo desproporcional. A válvula transcatéter é sempre biológica e é implantada por cateter, sem pontos no coração, “aninhando-se” no cálcio da válvula doente. Para muitos idosos e debilitados, isso muda o jogo: menos invasão, alta mais rápida, benefício real.
Com o tempo, estudos ampliaram o campo: bons resultados também em risco intermediário e, em alguns cenários, até baixo risco. Mas aqui entram duas questões cruciais:
- Durabilidade em pacientes mais jovens: abaixo dos 70 anos, ainda não temos comprovação robusta de longevidade dessa válvula.
- Complexidade da reoperação: retirar uma válvula transcatéter degenerada é uma cirurgia muito mais arriscada do que reoperar uma válvula implantada por via tradicional. A fixação no cálcio, ótima para o implante, torna a remoção um desafio com mortalidade 12 a 15 vezes superior à reoperação convencional.
Isso coloca um dilema: se você é mais jovem, pode até receber uma TAVI agora, mas quando ela degenerar, talvez já mais velho, enfrentará uma cirurgia mais complexa e arriscada. É um detalhe que não pode ser empurrado para debaixo do tapete.
“Válvula dentro de válvula”: quando cabe e quando não cabe
Há a possibilidade de, no futuro, colocar uma segunda válvula transcatéter dentro da primeira degenerada, sem cirurgia aberta. Isso pode ser valioso, mas depende do tamanho inicial da válvula. Se a primeira for pequena, a segunda pode não caber de forma segura; se for maior, a estratégia torna-se viável. Mais uma vez, planejamento é tudo: pensar hoje nos cenários de amanhã altera a decisão de agora.
Cirurgia tradicional, minimamente invasiva e a evolução real
Se você ainda associa “cirurgia cardíaca” exclusivamente a abrir o peito com serra no esterno, vale atualizar a imagem. Para a troca isolada da válvula aórtica, a rotina atual privilegia técnicas minimamente invasivas: incisões de 4–5 centímetros, menos agressão ao corpo, dor controlada, alta e recuperação mais rápidas e com segurança. A cirurgia aberta clássica existe e é necessária em casos específicos, mas não é mais o padrão automático.
Do ponto de vista de durabilidade, as válvulas cirúrgicas, sobretudo as biológicas, têm décadas de evidência e faixas etárias bem documentadas. Em pacientes de baixo e intermediário risco, há estudos e meta-análises mostrando maior sobrevida em 5 anos para a cirurgia (minimamente invasiva ou aberta) em comparação com a válvula transcatéter. Não é uma competição: é orientação baseada em resultado no médio prazo.
Segurança não é só “não abrir o peito”
É tentador dizer: se não precisa abrir, é mais seguro. Nem sempre. Segurança é a combinação de indicação correta, técnica adequada e resultado projetado para o tempo de vida do paciente. Para idosos frágeis, a TAVI oferece ganhos contundentes. Em outras faixas etárias, especialmente quando pensamos em 5, 10, 15 anos, a cirurgia com prótese cirúrgica pode entregar melhor sobrevida e menor risco de complicações cumulativas.
Portanto, as perguntas são: qual a expectativa de vida do paciente? Que compromissos está disposto a aceitar? O futuro que imagina cabe na escolha que está fazendo hoje?
Decisão compartilhada: medicina como conversa, não como decreto
A beleza da cardiologia moderna é que não estamos presos a uma única via. Temos um leque: próteses mecânicas e biológicas, técnicas minimamente invasivas, transcatéter, estratégias de “válvula dentro de válvula”. O papel do médico não é impor, mas explicar os cenários, mostrar prós e contras, e alinhar a terapia ao horizonte pessoal de cada paciente.
- Se tem mais de 70 anos, é frágil e quer um procedimento menos invasivo, a TAVI pode ser um caminho consistente.
- Se é mais jovem e busca longevidade comprovada, a cirurgia com prótese cirúrgica (mecânica ou biológica, conforme o perfil) tende a oferecer melhor sobrevida e previsibilidade de reintervenção.
- Se valoriza evitar anticoagulação a qualquer custo, precisa entender o que isso significa em termos de reoperação futura.
- Se aceita anticoagulação, deve entender a rotina de exames e a necessidade de disciplina, para obter os benefícios de uma prótese que não degenera.
No fim, cada escolha é um equilíbrio entre presente e futuro. A tecnologia avançou dos dois lados, tanto cirúrgico como transcatéter, para reduzir a invasão e aumentar a segurança dos procedimentos. Cabe a nós usarmos esses avanços com sabedoria, para que a decisão de hoje não seja um problema para os nossos pacientes amanhã.
O coração como metáfora e como realidade
A válvula abre e fecha 60, 70, 80 vezes por minuto, sem pedir aplauso. Quando começa a falhar, nos força a olhar para o tempo: o que ainda esperar da vida? Com que qualidade? Minha função aqui é traduzir técnica em vida prática. Trocar a válvula aórtica não é só um ato cirúrgico, mas um pacto que cada paciente faz com seu próprio futuro. E pactos bons se fazem com informação clara, intenção honesta e olhos abertos para o horizonte.
por Equipe Seu Cardio | Cirurgia Cardíaca, Válvulas
Entre os tratamentos mais modernos para a insuficiência mitral, temos a plastia mitral, a troca valvar por prótese (mecânica ou biológica) e a terapia transcatéter. Tanto a plastia quanto as próteses são realizadas por cirurgia minimamente invasiva, ou seja, através de incisões de cerca de 4cm a 5cm e, até mesmo, por cirurgia robótica.
Esse avanço da Medicina desmistifica bastante a cirurgia cardiovascular, uma vez que “abrir o peito” não é mais uma regra.
Neste texto, você vai saber os prós, contras e os critérios que devem ser considerados ao escolher o melhor tratamento para a insuficiência mitral.
Plastia Mitral: o padrão-ouro de tratamento
A insuficiência mitral degenerativa resulta de alterações na anatomia valvar, como ruptura ou alongamento das cordas, dilatação do anel e degeneração dos folhetos. Nesses casos, a plastia mitral é considerada o tratamento de primeira escolha, uma vez que preserva a válvula do próprio paciente.
A plastia é como uma plástica que corrige os problemas que estão causando a insuficiência mitral, sem precisar implantar uma prótese. Assim, ela resolve causas específicas, tais como:
- Cordas novas quando há ruptura/alongamento;
- Ressecção de segmentos do folheto doente;
- Anuloplastia para restaurar o diâmetro do anel.
Ao contrário do que muitos pensam, a cirurgia de plastia valvar mitral é realizada com técnicas minimamente invasivas, ou seja, sem “abrir o peito”. Atualmente, as duas principais abordagens são:
- Cirurgia minimamente invasiva: incisão de cerca de 4cm/5cm, sem corte do esterno (osso no meio do peito). Em mulheres, a incisão costuma ser feita abaixo do seio, escondendo completamente a cicatriz.
- Cirurgia robótica: pequenas incisões de cerca de 3cm/4cm, também sem corte do esterno. A grande vantagem dessa abordagem é que ela aumenta as chances de plastia, pois permite melhor visualização ao cirurgião e alta precisão dos movimentos.
Ambas as técnicas oferecem menos dor no pós-operatório, menor risco de complicações e recuperação mais rápida, e são realizadas rotineiramente em nosso serviço, no Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis/SC.
Por que a plastia é o padrão ouro?
Quando possível, a primeira escolha do cirurgião é realizar uma plastia. Essa técnica corrige o problema valvar sem necessitar de uma prótese, o que é excelente para o paciente:
- A plastia combina técnicas complementares (novas cordas, ressecção de folheto doente, anel para reduzir dilatação), ajustadas ao mecanismo da insuficiência;
- Evita anticoagulação crônica, ou seja, o paciente não precisa tomar anticoagulantes nem realizar exames periódicos de controle de TAP, como no caso das próteses mecânicas;
- Oferece excelente durabilidade, frequentemente evitando reoperações futuras, como nas próteses biológicas.
No entanto, vale salientar que, nem sempre, a plastia valvar pode ser indicada. Essa análise depende do problema valvar, da anatomia e da condição de saúde de cada paciente.
Troca Valvar Mitral: prótese biológica x mecânica
Quando a plastia mitral não é viável, entra em cena a substituição da válvula doente por uma prótese. Nesse caso, a questão principal é escolher entre prótese biológica e prótese mecânica.
Essa decisão varia caso a caso e a participação do paciente é fundamental. Para que seja bem feita, é necessário conhecer prós e contras de cada tipo de prótese e considerar características muito pessoais, como disciplina, tipo de profissão, idade, entre outras.
Prótese Valvar Biológica
- Degenera ao longo do tempo. Assim, especialmente em pacientes mais jovens, a reoperação futura será necessária.
- Não precisa de anticoagulação contínua. Geralmente, é necessária apenas nos primeiros três meses, depois costuma ser dispensável.
Prótese Valvar Mecânica
- Não sofre degeneração, podendo durar a vida inteira.
- Requer o uso contínuo de anticoagulantes para evitar coágulos na prótese, assim como exames de sangue para controle a cada 40–60 dias.
Portanto, a escolha é bastante individualizada. O cirurgião cardiovascular deve lhe explicar de forma clara as vantagens e desvantagens de cada prótese e lhe auxiliar no processo de decisão.
Terapia Transcatéter (Clip Mitral)
Além da cirurgia minimamente invasiva e da cirurgia robótica para plastia ou substituição valvar, a terapia transcatéter é mais uma opção entre os tratamentos mais modernos para a insuficiência mitral.
Nessa abordagem, é utilizado um catéter para inserir um clip na válvula mitral. Esse clip aproxima os folhetos valvares e reduz a insuficiência mitral. No entanto, é importante saber que essa técnica tem algumas limitações:
- Depende da anatomia da válvula mitral do paciente;
- Tem menor durabilidade;
- É como um reparo limitado à anatomia adequada para o clip.
O clip resolve o espaço entre os folhetos, sem corrigir todos os mecanismos subjacentes. Por isso, sua durabilidade é menor em perfis que se beneficiariam de um reparo anatômico completo.
Além disso, assim como nas demais opções de tratamento, sua indicação depende de alguns fatores, ou seja, nem todos os pacientes se beneficiam dessa terapia. Normalmente, ela é indicada para:
- Pacientes com insuficiência mitral grave e alto risco cirúrgico (fragilidade, idade muito avançada, comorbidades significativas);
- Pode ser “ponte” para estabilizar o quadro, permitindo cirurgia definitiva depois;
- Em alguns casos, funciona como solução paliativa eficaz, alinhada à expectativa de vida e aos objetivos do paciente.
Qual opção de tratamento escolher?
A decisão ideal sobre qual procedimento realizar para o tratamento da insuficiência mitral é conjunta. Cabe ao cirurgião apresentar ao paciente todas as opções, seus riscos e benefícios, alinhando a técnica à vida real, e ao paciente analisar os impactos no seu dia a dia e no seu futuro.
Em linhas gerais, a escolha depende de fatores como:
- Idade e expectativa de vida;
- Fragilidade e comorbidades;
- Ritmo cardíaco e necessidade/viabilidade de anticoagulação;
- Anatomia da válvula (se é reparável com plastia);
- Adesão possível a exames e medicamentos;
- Preferências do paciente, depois de informado.
Como vimos, a cirurgia cardiovascular evoluiu para incisões pequenas e visualização robótica, enquanto o transcatéter expandiu o acesso a quem não pode operar. A grande questão é qual técnica oferece, para você, o equilíbrio certo entre segurança agora e qualidade a longo prazo?
Decisão boa é aquela que cabe no seu corpo e na sua vida. Para tomar sua decisão sobre qual caminho seguir entre as opções mais modernas de tratamento da insuficiência mitral, converse com o seu cirurgião cardiovascular sobre o seu caso. Tenha em mente que a qualidade do resultado não depende do tamanho da incisão, mas da técnica e da experiência da equipe cirúrgica.
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A cirurgia cardíaca minimamente invasiva para troca de válvula aórtica vem se consolidando como uma das alternativas terapêuticas para pacientes que necessitam dessa troca de forma isolada. Consiste em uma incisão de apenas seis centímetros. Com abertura parcial do osso esterno, através da qual se consegue realizar a troca da válvula aórtica com a mesma segurança da cirurgia aberta – que tem cerca de 25 centímetros. A técnica não requer o uso de câmera ou outro material específico.
Com a mesma duração das cirurgias abertas – de 2 horas e meia a 3 horas, a cirurgia cardíaca minimamente invasiva é menos agressiva ao paciente. A menor incisão do esterno proporciona menos dor no pós-operatório e diminui o índice de transfusão do paciente. Ou seja, existe uma menor agressão cirúrgica.
Cirurgia Cardíaca Minimamente Invasiva – Aplicação
A cirurgia cardíaca minimamente invasiva vem se estabelecendo como uma rotina no serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital SOS Cárdio, nos casos de troca isolada da válvula aórtica. Nos casos de cirurgias combinadas, com troca de válvula aórtica e mitral, ou troca de de válvula aórtica com revascularização (ponte de safena), é feita a cirurgia convencional.
É preciso salientar ainda que, em alguns casos, pode haver a necessidade de uma incisão maior, mesmo tendo sido programada uma cirurgia minimamente invasiva. Em geral, a mudança é decorrente de questões anatômicas do paciente, pelo posicionamento da aorta ou mesmo da válvula.
Benefícios da Cirurgia Minimamente Invasiva
O que temos visto em nossa experiência com a cirurgia cardíaca minimamente invasiva é uma menor incidência de dor no pós-operatório. Além disso, há menor uso de transfusão sanguínea e, ainda, menor tempo de internação hospitalar.
Na cirurgia minimamente invasiva, o paciente se recupera mais rápido. O impacto psicológico também é menor, se comparado à cirurgia convencional. Além disso, do ponto de vista estético, é muito melhor para o paciente, pois a cicatriz é pequena.
Mini-incisão e Prótese Valvar de Rápido Implante
Uma prática que temos adotado e que tem diminuído ainda mais o tempo de circulação extracorpórea e a agressividade da cirurgia é a associação da mini-incisão com a válvula de rápido delivery. Essa prótese valvar, com a qual temos tido uma importante experiência, tem apresentado ótimos resultados. Trata-se de um recurso direcionado a pacientes mais graves, que precisam de um tempo menor de circulação extracorpórea e de coração parado. A combinação da prótese de rápido implante com a mini-incisão é mais uma alternativa, muito promissora, no tratamento das doenças da válvula aórtica.
Sobre o autor:
Este artigo foi escrito com base em entrevista com o Dr. Sergio Lima de Almeida (CRM 4370 / RQE 5893), cirurgião cardiovascular em Florianópolis/SC. Dr. Sergio é Chefe do Serviço de Cirurgia Cardíaca do Hospital SOS Cárdio e da Equipe Seu Cardio. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Estado de Santa Catarina – UFSC e com residência na Beneficência Portuguesa, na equipe do Dr. Sergio Oliveira, aperfeiçoou-se em plastia de válvulas na Cleveland Clinic, acompanhando Dr. Delos Cosgrove, e em cirurgia de cardiopatia congênita complexa, no Children Hospital – Harvard Medical School, acompanhando Dr. Aldo Castañeda. Foi também cirurgião cardiovascular do Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis/SC, por 10 anos. Realiza diariamente procedimentos como: cirurgias de revascularização do miocárdio, cirurgia de válvulas e da aorta, além de implantes de marcapassos cardíacos. Com grande experiência em idosos, vem abordando o tema em congressos nacionais e internacionais.

por Equipe Seu Cardio | Aorta, Blog, Cirurgia Cardíaca, Cirurgia em Idoso, Congênito, Coronária, Fatos e Mitos, Pré e Pós-Operatório, Válvulas
Este conteúdo reúne as 12 dúvidas mais comuns de quem está passando pelo pós-operatório de cirurgia cardíaca. Aqui, você encontra diversas respostas, desde temas como dor e inchaço até quando retomar atividades físicas, dirigir e ter relações sexuais.
Cirurgias cardíacas são eventos importantes na vida de qualquer pessoa. Exigem preparação, cuidados e recursos especializados. No entanto, para obter sucesso, o pós-operatório é fundamental. E é nessa fase que os pacientes costumam apresentar o maior número de dúvidas – especialmente com relação à retomada das atividades básicas do dia a dia.
Para ajudar você a retornar à vida normal de forma tranquila e segura, selecionamos algumas das principais dúvidas dos pacientes no pós-operatório da cirurgia cardíaca. São informações relevantes, que podem lhe orientar nessa fase crucial, mas que não substituem a orientação do seu próprio médico.
1 – Por que sinto dor no meu pós-operatório?
Quando realizadas pela abordagem tradicional, as cirurgias cardíacas costumam ser de grande porte. Devido à incisão da pele, abertura do osso esterno e colocação de drenos, os músculos da região torácica ficam bastante sensíveis, causando dor.
Quando realizadas por abordagem minimamente invasiva ou cirurgia robótica, a agressão cirúrgica, assim como as incisões, são muito menores. Dessa forma, os pacientes costumam sentir menor dor no pós-operatório e ter uma recuperação mais rápida.
Porém, é importante saber que a dor é manejável com o uso de medicação. Por isso, é importante que o paciente relate as dores que sente, para que os médicos possam prescrever os medicamentos necessários. Além disso, a fisioterapia respiratória e motora, bem executada, pode auxiliar bastante nessa fase.
2 – Por que minhas pernas ficam inchadas depois da cirurgia?
Após a cirurgia cardíaca, o inchaço (edema) das pernas é comum, principalmente nos pacientes que se submetem à revascularização do miocárdio com a utilização de veia safena. Via de regra, esse inchaço costuma ser provocado pela manipulação de vasos linfáticos durante o procedimento. A própria retirada da veia estabelece ao organismo a necessidade de redirecionar o fluxo sanguíneo que passava por ela para o sistema venoso profundo da perna. Essa adequação leva algum tempo e, por isso, os pacientes tendem a ficar com a perna, da qual foi retirada a safena, um pouco mais inchada.
Esse edema, quando leve a moderado, não deve se traduzir em uma preocupação, pois é normal e reversível. Por isso, orientamos os pacientes para a movimentação precoce e para que mantenham as pernas elevadas quando estiverem sentados. O uso de meias elásticas também pode ajudar. Caso o inchaço das pernas permaneça por mais de um mês, recomendamos o acompanhamento clínico.
3- Posso dormir de lado após a cirurgia cardíaca?
Quando o paciente passa por uma cirurgia cardíaca com abordagem tradicional, ou seja, com a “abertura do peito” (incisão central no tórax e esternotomia), recomenda-se que durma de barriga para cima por, aproximadamente, 60 dias. Esse é o tempo necessário para que o osso esterno se feche. Dormindo de lado, o paciente corre o risco de sofrer com o que chamamos de cavalgadura do osso, o que pode ocasionar dor e desconforto.
Já na abordagem minimamente invasiva ou na cirurgia cardíaca robótica, as incisões são menores e não há necessidade de abertura do esterno. Assim, recomendamos apenas que os pacientes não durmam sobre o local da cicatriz cirúrgica nos primeiros 10 dias.
4 – Posso fazer as unhas e pintar o cabelo logo após a alta hospitalar?
Em geral, recomendamos aos pacientes que esperem 15 dias após a cirurgia cardíaca para pintar/tonalizar os cabelos e fazer a retirada das cutículas das unhas.
No entanto, ressaltamos que é fundamental utilizar os seus próprios materiais (alicates, tesouras, lixas, etc) e que eles devem estar devidamente esterilizados. No caso das unhas em gel, além de utilizar o material devidamente esterilizado, é imprescindível que as unhas estejam sem processo inflamatório (infeccioso) ou com fungos. Essas recomendações evitam a ocorrência de infecções no pós-operatório e, por isso, são bem importantes.
5- Posso usar filtro solar na cicatriz?
Os pacientes devem evitar a exposição ao sol nos primeiros 90 dias após a cirurgia. Se a cicatriz evoluir bem, sem nenhum sinal de infecção na ferida operatória (incisão), é possível usar protetor solar 30 dias após a cirurgia.
6- Quando posso voltar a subir escadas, limpar a casa ou cuidar do jardim?
As primeiras atividades físicas já começam a ser feitas no pós-operatório imediato, ainda na UTI, quando o fisioterapeuta inicia a reabilitação respiratória e motora. Após a alta da UTI, andar/caminhar é muito importante para evitar complicações, como o tromboembolismo e os problemas respiratórios. Esse tipo de atividade também auxilia na recuperação do trânsito intestinal. As caminhadas progressivas são recomendadas e o incremento de tempo é prescrito de forma individualizada.
O retorno às atividades rotineiras depende da abordagem cirúrgica: se foi uma cirurgia convencional (“abertura do peito” e esternotomia), cirurgia minimamente invasiva ou cirurgia robótica.
Retorno às atividades após cirurgia cardíaca convencional:
O paciente já pode subir escadas no retorno para casa. Porém, atividades que envolvem esforço dos braços e do tronco, demandam mais tempo. Assim, os pacientes podem voltar a limpar a casa e a cuidar do jardim apenas após 40 dias da cirurgia, sempre gradativamente.
Retorno após cirurgia cardíaca minimamente invasiva ou robótica:
As restrições de esforço relacionadas aos braços e tronco existem para proteger a cicatrização do esterno após a esternotomia, que acontece na abordagem convencional. Por isso, esse tipo de restrição não acontece nas cirurgias cardíacas minimamente invasivas e robóticas. Nesses casos, recomendamos o retorno às atividades cerca de 14 dias após o procedimento cirúrgico.
7- Em quanto tempo posso voltar a fazer atividades físicas?
Para os praticantes de esportes que passaram pela abordagem tradicional, em geral, é possível retomar gradativamente a prática esportiva a partir de 60 dias (tempo relacionado à consolidação do osso esterno).
Na abordagem minimamente invasiva e na cirurgia robótica, por não haver esternotomia, esse retorno tende a ser mais rápido, cerca de 14 dias.
No entanto, independente da abordagem cirúrgica, é fundamental perguntar ao seu Cardiologista Clínico sobre a recomendação da retomada de atividades físicas específicamente para o seu caso.
8- Constipação após a cirurgia cardíaca é normal?
Sim, essa é uma queixa bastante comum e vários fatores podem levar à constipação intestinal. Em geral, o jejum para a cirurgia, a anestesia e o fato de o paciente ficar um tempo maior deitado no pós-operatório são algumas das causas.
Para isso, recomenda-se andar/caminhar (já falamos acima), bem como adotar uma dieta rica em fibras e líquidos. Vale salientar que o nutricionista também faz parte da equipe multidisciplinar da cirurgia cardíaca e sua orientação pode lhe auxiliar a diminuir essa condição.
9- A partir de quando posso voltar a ter relações sexuais?
Geralmente, após uma cirurgia cardíaca com abertura do esterno, os pacientes que conseguem subir pelo menos 2 lances de escadas, sem dificuldade, já possuem condições de retomar a atividade sexual de forma leve a moderada. O ideal é que o paciente adote uma postura mais passiva e evite movimentos bruscos e excessivos com os braços e com o tórax. Em média, são necessárias de 45 a 60 dias para voltar a ter relações sexuais sem restrição de movimentos. Esse prazo está ligado ao tempo necessário à cicatrização do esterno.
Na abordagem minimamente invasiva e na cirurgia cardíaca robótica, esse retorno tende a ser mais precoce, cerca de 14 dias.
Pacientes que fazem reabilitação física tendem a ser liberados antes, em qualquer abordagem. Saiba mais neste post aqui.
10- A ponte de safena tem validade?
A validade da “ponte de safena”, seja com uso de artéria mamária, artéria radial ou veia safena, está diretamente relacionada aos hábitos do paciente. Afinal, a necessidade da cirurgia de revascularização do miocárdio é gerada pela doença coronariana, que precisa de tratamento a longo prazo.
Assim, a adoção de hábitos saudáveis pode aumentar a longevidade das pontes. Entre eles, o controle adequado dos níveis de colesterol, de glicemia (principalmente nos pacientes diabéticos) e parar de fumar (para os pacientes que fumavam antes da cirurgia). Saiba mais neste post.
11- Depois de quantos dias da cirurgia cardíaca posso voltar a dirigir?
Nas cirurgias cardiovasculares com incisão no osso da região central do tórax, movimentos bruscos podem causar uma dor importante. Por reflexo, uma dor forte pode fazer o paciente largar as mãos do volante e bater o carro. Além disso, os reflexos podem estar prejudicados pela medicação, representando um risco também.
Assim, recomenda-se voltar a dirigir apenas 60 dias após a cirurgia cardíaca tradicional. Já nas abordagens minimamente invasivas e na cirurgia robótica, o retorno pode acontecer em cerca de 14 dias.
12- Depois da cirurgia cardíaca posso voltar a beber vinho, cerveja e/ou destilados?
Normalmente, recomenda-se que a ingestão de bebidas alcoólicas não seja realizada nos primeiros 15 dias após a alta hospitalar. Após este período, é recomendado que o paciente converse com seu Cardiologista Clínico, que irá orientar sobre frequência e quantidade de bebidas alcoólicas que o paciente poderá ingerir, sem causar impacto nas medicações que está usando.
Para saber mais sobre o pós-operatório da cirurgia cardíaca, acesse a cartilha gratuita aqui.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quanto tempo dura a recuperação total da cirurgia cardíaca? Depende do tipo de abordagem cirúrgica. Se for uma cirurgia cardíaca convencional, ou seja, com abertura do osso esterno, a recuperação inicial leva cerca de 30 dias e, a cicatrização óssea, aproximadamente 60 dias – quando, geralmente, é possível retomar à prática de atividades físicas. Já na abordagem minimamente invasiva e na cirurgia cardíaca robótica, como não há abertura do esterno, a recuperação completa geralmente leva 14 a 21 dias.
Quais sinais no pós-operatório precisam de atenção médica imediata? Febre, secreção na ferida, dor torácica intensa, falta de ar importante ou instabilidade do osso esterno devem ser avaliados sem demora.
Sobre o autor:
Dr. Sergio Lima de Almeida (CRM-SC 4370 / RQE 5893), médico, cirurgião cardiovascular, chefe da Equipe Seu Cardio e do Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis/SC.
por Equipe Seu Cardio | Blog, Fatores de Risco e Prevenção, Válvulas
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