Válvula Mecânica ou Biológica: qual a mais adequada?

Válvula Mecânica ou Biológica: qual a mais adequada?

Não existe uma válvula “melhor” entre a mecânica e a biológica. A escolha depende de fatores como idade do paciente, estilo de vida, disciplina no uso contínuo de anticoagulantes e aceitação diante da possibilidade de uma nova troca futura. Cada tipo de prótese valvar atende melhor a um perfil diferente de paciente.

A opção entre válvula mecânica ou biológica é uma das principais dúvidas das pessoas que recebem a indicação de uma cirurgia cardíaca para troca de válvula do coração. Atualmente, são realizadas mais de 300 mil cirurgias de troca valvar por ano no mundo. Segundo  estimativas da literatura clínica internacional, o número deve triplicar até 2050, com o envelhecimento da população.

Neste post, vamos abordar alguns critérios que são analisados no momento da escolha. A decisão deve ser amplamente conversada com o Cardiologista Clínico e o Cirurgião Cardiovascular. Os médicos terão condições de avaliar cada caso em particular e de orientar o paciente sobre a melhor prótese valvar para o seu caso.

Qual a diferença entre válvula mecânica e biológica?

O cirurgião cardiovascular Dr. Sergio Lima de Almeida (CRM-SC 4370/RQE 5893), chefe da equipe Seu Cardio, de Cirurgia Cardiovascular em Florianópolis/SC, explica os tipos de próteses valvares cardíacas:

“Podemos dizer que, se existem dois tipos de próteses valvares para se escolher, é porque cada tipo atende a uma necessidade em especial. Assim, não há um tipo de prótese valvar melhor ou pior, mas aquele que se adequa melhor às características de cada pessoa – agora e a longo prazo.” –  Dr. Sérgio Lima de Almeida (CRM-SC 4370/RQE 5893), Cirurgião Cardiovascular em Florianópolis/SC. 

A grande diferença entre as próteses de válvula mecânica ou biológica está no tipo de material com a qual são feitas. As próteses valvares mecânicas são feitas de metal, enquanto que as próteses biológicas, na maioria das vezes, são de tecido de porco ou de boi. Quando se fala isso, a primeira reação é se perguntar sobre o risco de rejeição da prótese. Porém, o tecido animal utilizado passa por um processo de antigenicidade, ou seja, essa característica elimina qualquer risco de rejeição.

Critérios para a escolha entre prótese mecânica ou biológica

Abaixo, apresentamos os principais fatores que devem ser analisados para se chegar à conclusão da melhor opção de prótese de válvula cardíaca para cada paciente, entre mecânica e biológica. Entenda os prós e contras de cada tipo:

1. Durabilidade das Próteses Valvares Cardíacas

O impacto da diferença entre a durabilidade das válvulas mecânicas e das válvulas biológicas está centrado na necessidade de uma futura reoperação. As válvulas mecânicas tem uma durabilidade longa, normalmente a vida inteira. Por outro lado, as válvulas biológicas, de modo geral, precisam ser trocadas um dia. Isso porque elas degeneram, devido ao metabolismo do cálcio no organismo, assim  levam o paciente a precisar de uma nova cirurgia para a troca da prótese valvar no futuro.

Aí surge outra questão: alguém escolhe prótese biológica para operar de novo? Sim, pois este não é o único critério que define a opção entre válvula mecânica ou biológica.

2. Uso Contínuo de Medicação Anticoagulante

A prótese mecânica, por ser de metal, requer o uso de medicação anticoagulante de uso contínuo. E isso cria uma condição que o paciente não tem: torna o seu sangue pouco coagulável.

A necessidade da anticoagulação, associada às próteses mecânicas, se deve ao fato de que elas tendem a formar coágulos. Caso surjam, há o risco de travamento do disco da prótese e de embolias (quando parte do coágulo se solta), inclusive de embolia cerebral. Por isso, a disciplina do paciente e seu comprometimento com o tratamento são fundamentais, tanto em relação à tomar a medicação anticoagulante quanto realizar o controle da anticoagulação, através do exame de TAP. Até mesmo o seu estilo de vida precisa ser levado em conta, devido aos riscos desse tipo de medicação. 

Por isso, pessoas que praticam esportes radicais ou cuja profissão pode acarretar acidentes, como o caso de caminhoneiros, por exemplo, devem avaliar bem essa questão.

3. Idade do paciente no implante da válvula cardíaca

Antes de abordarmos qual a melhor escolha para cada pessoa, precisamos considerar a idade do paciente na cirurgia de implante da prótese valvar cardíaca. 

“No caso das válvulas biológicas, a duração da prótese é inversamente proporcional à idade. Assim, em pacientes jovens, a durabilidade da prótese biológica é menor, enquanto que, nos idosos, é maior. Por isso, a idade é mais um fator a ser considerado, já que a durabilidade implica em uma nova cirurgia cardíaca para a troca da prótese.” – Dr. Sérgio Lima de Almeida (CRM-SC 4370/RQE 5893).

Em geral, pela necessidade de troca futura das válvulas biológicas, há uma tendência maior de uso das válvulas mecânicas entre os mais jovens. Logicamente, lembrando que este não é um critério a ser avaliado isoladamente, como já apresentado acima.

Reoperação para Troca da Prótese Mecânica

É fundamental destacar que o implante de uma prótese mecânica não elimina totalmente a necessidade de uma nova intervenção. Quando acontece, a reoperação para troca da prótese mecânica geralmente decorre de dois fatores principais:

  • Uso incorreto do anticoagulante: quando o paciente erra a dose para menos, o risco de formação de coágulos na prótese aumenta. Nesses casos, muitas vezes é necessária nova cirurgia para realizar a troca da prótese mecânica.
  • Infecções nas próteses: tanto as válvulas mecânicas quanto as biológicas estão sujeitas a processos infecciosos que podem demandar a troca da prótese. 

Infecção na Prótese Valvar Mecânica ou Biológica

Tanto as próteses valvares mecânicas quanto as biológicas podem sofrer processos infecciosos com necessidade de troca cirúrgica. Normalmente, as infecções dentárias são a fonte mais comum desses quadros. 

Assim, a principal forma de prevenção contra infecções em próteses cardíacas é o cuidado adequado com a saúde bucal. É indispensável realizar profilaxia dentária e evitar procedimentos odontológicos sem a devida cobertura antibiótica. Portanto, consulte sempre seu cardiologista, seu cirurgião cardiovascular e um dentista especializado na área.

Qual a melhor prótese valvar cardíaca para jovens?

Uma vez que as próteses biológicas duram menos do que as mecânicas, dependendo da idade do paciente, ele precisará passar por algumas reoperações futuras para a troca. Se tomarmos como exemplo um jovem que implanta uma válvula biológica aos 20 anos de idade, provavelmente ele terá duas ou mais reoperações ao longo da vida. Isso porque, quanto mais jovem o paciente, devido ao metabolismo do cálcio no corpo, menos a prótese biológica dura. Por isso, nesses casos, geralmente se indica uma prótese mecânica, caso não exista uma contraindicação formal à anticoagulação.

Qual a melhor prótese na idade adulta: mecânica ou biológica?

Na faixa de 40-50 anos, ao optar por uma válvula mecânica, o paciente precisará passar por um longo período da sua vida usando anticoagulantes. Porém, alguns estudos nos Estados Unidos mostram que o uso de anticoagulantes a longo prazo pode ter maior risco do que uma primeira reoperação. 

Caso opte por uma válvula biológica, o paciente adulto também precisará de nova cirurgia cardíaca futura para a troca da prótese. Afinal, ela terá maior durabilidade do que no jovem, mas ainda assim irá se desgastar. Nesse sentido, se considerarmos que a primeira válvula biológica dure 15 anos e a segunda 20 anos, este adulto poderá ter uma ou duas reoperações na vida. No entanto, há algumas alternativas que precisam ser consideradas:

a. Tecnologia de maior durabilidade

A tecnologia vem avançando e contribuindo para maior durabilidade das próteses biológicas. Um exemplo é a tecnologia Resilia, que retarda o processo degenerativo de calcificação. 

b. Valve-in-Valve

Algumas trocas valvares podem ser realizadas por um procedimento chamado Valve-in-Valve. Trata-se de uma abordagem percutânea, ou seja, via cateter, na qual o cirurgião implanta uma nova prótese biológica dentro da outra já existente. Assim, o paciente passa por uma troca valvar sem necessidade de uma intervenção cirúrgica semelhante ao seu primeiro implante.

Diante desses pontos, é fundamental analisar as alternativas caso a caso, considerando prós e contras das próteses mecânicas e biológicas conforme as opções disponíveis para cada paciente.

Qual a melhor opção de válvula cardíaca para idosos?

Para as pessoas com mais de 65 anos, há uma tendência maior ao implante de prótese biológica. Em geral, na faixa entre 65 e 70 anos, a prótese biológica tem uma durabilidade de cerca de 20 anos ou mais. Além disso, nesta faixa etária, os riscos de medicação anticoagulante estão relacionados à maior incidência de hemorragia cerebral do que em pessoas jovens. Por isso, a prótese biológica acaba sendo a opção mais indicada – mas ainda lembrando que a idade não deve ser o único critério de escolha.

Como escolher entre válvula mecânica ou biológica?

Quem necessita de uma troca de válvula do coração se vê diante de dois caminhos. O primeiro, de enfrentar o risco da anticoagulação diária, afastando a necessidade de reoperação futura (optando por válvula mecânica). O segundo, de aceitar a possibilidade de vir a ser operado novamente, mas sem conviver os riscos da anticoagulação (optando por válvula biológica).

Por isso, este assunto é bastante complexo e depende muito da opção de cada paciente. No entanto, é fundamental que a decisão seja realizada de forma bem consciente. Assim, converse com seu Cardiologista Clínico e com o seu Cirurgião Cardiovascular e esclareça todas as suas dúvidas. Eles irão lhe orientar e definir, junto com você, a melhor escolha para o seu caso. Se tiver alguma dúvida, conte conosco!

Perguntas Frequentes (FAQ)


Válvula mecânica ou biológica: qual dura mais?

A mecânica costuma durar a vida inteira, mas exige anticoagulante contínuo. A biológica tem durabilidade limitada (varia com a idade do paciente), mas dispensa a medicação de anticoagulação e o controle de rotina.


Quem usa válvula mecânica precisa tomar remédio para sempre?

Sim. A prótese mecânica exige uso contínuo de anticoagulante e controle periódico de TAP.


A idade influencia na escolha da prótese?

Sim: válvulas biológicas duram mais em pacientes mais velhos, enquanto pacientes mais jovens tendem a precisar de reoperação mais cedo.


Existe alguma prótese biológica que dura mais?

Sim, algumas próteses contam com tecnologia que lhes confere maior durabilidade, como é o caso da tecnologia Resília.

Sobre o autor: 

Conteúdo escrito com base em entrevista com o Dr. Sergio Lima de Almeida (CRM 4370 / RQE 5893), médico, cirurgião cardiovascular em Florianópolis/SC.

Insuficiência Valvar: indicações e tratamentos

Insuficiência Valvar: indicações e tratamentos

Para falarmos de insuficiência valvar, precisamos entender que as válvulas cardíacas funcionam como quatro portas. Localizadas entre as quatro câmaras do coração, elas devem permitir a passagem do sangue apenas no sentido correto da circulação – e se fechar para eventuais refluxos. 

“A insuficiência valvar acontece quando uma das quatro válvulas do coração torna-se incompetente na sua função de fechar, permitindo o refluxo de sangue. Esse refluxo, com o passar do tempo, pode levar à falência de bomba do coração”  – Dr. Sergio Lima de Almeida, Cirurgião Cardiovascular em Florianópolis/SC (CRM 4370 / RQE 5893).

Efeitos Degenerativos

Caso não seja tratada, a insuficiência valvar tende a tornar-se cada vez mais grave. O problema, originado e, até certo ponto, localizado nas válvulas, pode ter impacto direto sobre a bomba cardíaca como um todo.

“A insuficiência valvar provoca uma perda gradual na força contrátil do coração. Isso faz com que a quantidade de sangue ejetado pelo órgão a cada batimento (fração de ejeção) seja cada vez menor, levando a um quadro clínico chamado de insuficiência cardíaca” –  Dr. Sergio Lima de Almeida, Cirurgião Cardiovascular em Florianópolis/SC (CRM 4370 / RQE 5893).

A insuficiência valvar pode provocar sintomas diversos, que variam de acordo com a válvula afetada. A manifestação mais comum da doença, no entanto, é o cansaço excessivo e a falta de ar.

Tratamento da Insuficiência Valvar

Os tratamentos para a insuficiência valvar podem envolver o reparo cirúrgico da válvula (plastia valvar) ou a substituição dessa estrutura por uma prótese valvar mecânica ou biológica – a exemplo das novas próteses com Tecnologia Resilia.

“Além de estarem posicionadas em regiões diferentes dentro do coração, as válvulas cardíacas possuem características particulares que exigem abordagens próprias”  – Dr. Sergio Lima de Almeida, Cirurgião Cardiovascular em Florianópolis/SC (CRM 4370 / RQE 5893).

Válvula Mitral (localizada entre o átrio e o ventrículo esquerdos):

Hoje, existe uma grande variedade de técnicas que fazem com que o reparo cirúrgico, plastia da valva mitral, seja considerado o padrão ouro nos casos de insuficiência valvar mitral degenerativa – que cursa com insuficiência severa da valva mitral.

Válvula Aórtica (localizada entre o ventrículo esquerdo e a artéria aorta):

Apesar do contínuo desenvolvimento e da crescente popularidade, a plastia da válvula aórtica ainda se reserva a casos selecionados. Por isso, em geral, o tratamento mais indicado costuma ser a substituição da válvula original por uma prótese valvar mecânica ou biológica.

Válvula Tricúspide (localizada entre o átrio e ventrículo direito):

A disfunção da válvula tricúspide costuma estar relacionada à insuficiência decorrente da dilatação do coração. No geral, pacientes que apresentam doença valvar no lado esquerdo do coração (mitral ou aórtica) tendem a apresentar insuficiência valvar também no lado direito, na válvula tricúspide.

“A plastia da válvula tricúspide vem mostrando resultados muito bons a curto, médio e longo prazos. É cada vez mais comum a associação do tratamento das válvulas do lado esquerdo do coração (mitral e aórtica) à plastia da válvula tricúspide” –  Dr. Sergio Lima de Almeida, Cirurgião Cardiovascular em Florianópolis/SC (CRM 4370 / RQE 5893).

Válvula pulmonar (localizada entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar):

Trata-se de um tipo raro de insuficiência valvar, geralmente relacionado às cardiopatias congênitas. O tratamento costuma ser realizado ainda na infância.

Próteses Valvares Cardíacas

Dependendo das causas que levam à doença, a insuficiência valvar não pode ser tratada com a plastia das válvulas cardíacas. Esse, por exemplo, costuma ser o caso da doença reumática, que provoca uma retração muito grande das válvulas, impossibilitando a plastia. Nesses casos, a alternativa passa a ser o implante valvar, seja de próteses biológicas como de próteses mecânicas.

“A decisão sobre qual modelo de prótese deverá ser implantada leva em consideração a idade do paciente. Isso porque as próteses biológicas têm durabilidade menor em pacientes mais jovens. Outro ponto observado é a aceitação do paciente em tomar ou não a medicação anticoagulante oral – e da realização dos exames para controle de TAP – uma vez que essa é uma exigência para o implante das  próteses mecânicas” – Dr. Sergio Lima de Almeida, Cirurgião Cardiovascular em Florianópolis/SC (CRM 4370 / RQE 5893).

Fique atento à insuficiência valvar. Converse com o seu cardiologista sobre o essa doença e informe-se sobre as possibilidades de tratamento. É importante que você entenda os prós e contras de cada conduta e avalie a melhor opção para você.

 

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